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Sinopses e fichas técnicas dos filmes | |
Abreviações: D: direção; Ass: assistente; P: produção; R: roteiro; C: câmera; S: som; M: montagem; Mús: música; Mix: mixagem; Loc: locução; Int: interpretação CNC: Centre National de la Cinématographie, atual Centre national du cinéma et de l’image animée; CNRS: Centre Nationale de la Recherche Scientifique; CNRSH: Centre Nigérien de Recherches en Sciences Humaines (Niamey); CFE: Comité du Film Ethnographique (Musée de l’Homme); EPHE: Ecole Pratique des Hautes Études; EM: Éditions Montparnasse; FP (Les Films de la Pléiade); IFAN: Institut Français de l’Afrique Noire; IRSH: Institut de recherches en sciences humaines (Niamey); ISH: Institut des Sciences Humaines du Mali (Bamako); MAE: Ministère des Affaires Étrangères et Européennes. Programa 1 Tateios iniciais e invenção de um estilo na África negra (Níger e Mali, 1948-51) 119’ »
Os mágicos de Wanzerbé
Les magiciens de Wanzerbé
Documentário sobre ritos e costumes dos habitantes do vilarejo de Wanzerbé, no Níger: o comércio no mercado com a presença dos Tuareg e dos Bella, as brincadeiras das crianças, as práticas divinatórias do velho mágico Mossi, danças de transe extático dos mágicos Sohantyé, sacrifício de animais na montanha (sob o olhar das crianças) para proteger o vilarejo. Rouch comenta tudo em over, de modo quase ininterrupto. »
Iniciação à dança
dos possuídos Initiation à la danse des possédés
Zaaba, uma mulher Songhay da aldeia de Firgoun (Níger), que vinha sendo possuída com freqüência por dois espíritos, é iniciada às danças de possessão na cerimônia do Horendi, para que os espíritos só se encarnem em seu corpo quando solicitados pelos sacerdotes. O filme mostra as várias etapas da cerimônia de 7 dias, dando a ver os músicos, as dançarinas iniciadas, as possessões, as danças rituais, os espectadores e a saída da nova iniciada no fim do processo. Finda a cerimônia, Zaaba está curada, os visitantes e o violinista partem, a vida retoma seu curso normal em Firgoun. »
Circuncisão Circoncision
Trinta crianças Songhay da aldeia de Hombori, no Mali, passam pelo ritual da circuncisão, mostrado em suas várias etapas sucessivas, com precisão etnográfica e muito senso da beleza. »
Cemitérios na falésia
Cimetières dans la falaise
Primeiro filme de Rouch sobre os ritos funerários dos Dogon. Um homem morreu afogado em Ireli, em meio a uma tempestade, e seu corpo desapareceu na torrente. Yebené e Akunyo de Bara vão às margens do rio sacrificar um pintinho para pedirem perdão ao espírito da água, Nommo Ougourou, que lhes permite assim reencontrar o cadáver. Começa então um funeral tradicional, ao fim do qual o morto será guindado, ao som de cantos e prantos, até o cemitério na falésia, para repousar ao lado dos seus antepassados, dos quais vemos ossadas numa caverna. Fechada a gruta dos mortos, os planos finais mostram uma cascata e o fluxo do Rio, a vida sucedendo a morte. »
Batalha no grande rio Battaille
sur le grand fleuve
O filme conta a história da
grande batalha travada no rio Níger, de janeiro a junho de 1951,
entre 21 pescadores Sorko e os hipopótamos de Yassane, Baria, Tamoulés
e Labbezenga. Narrado em over por Rouch sobre um fundo de canções
e vozes dos Sorko quase ininterruptas, o filme alia a precisão documentária
a um sentido muito agudo da dramaticidade. Ele começa mostrando
os preparativos dos pescadores (construção das pirogas e
dos harpões, cerimônias de possessão para pedir aos
espíritos sucesso na caça), antes de acompanhar sua partida
para a caça. Esta será filmada de perto em suas diferentes
etapas, com uma câmera na mão instável como as pirogas
em que ela se posta. Veremos os pescadores matarem uma fêmea de 2
toneladas e capturarem depois um filhote vivo, com o qual o jovem Damouré
Zika aparecerá brincando em cenas de muita beleza. Mas o velho hipopótamo
selvagem, que os pescadores perseguem e atacam freneticamente, consegue
fugir, apesar de todos os esforços do grupo. Os Sorko terão
assim, no fim das contas, perdido a batalha. Primeira obra-prima de Rouch,
esta epopéia fluvial é também uma resposta em grande
estilo à deformação inflingida às imagens semelhantes
de No país dos magos negros por uma montagem e uma sonorização
que haviam, 4 anos antes, desvirtuado seus propósitos.
Programa
2
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Mammy Water Mammy Water
Primeiro filme de Rouch no Gana, e o primeiro explorando a beleza das paisagens marinhas, Mammy Water dá a ver uma profusão de cores, pessoas e movimentos. Novamente, seu comentário over convive com músicas e burburinhos dos nativos. No início, crianças brincando na praia e pescadores Fanti em ação no mar, mas o mar não está para peixe. A insatisfação dos deuses da água tornou a pesca ineficaz após a morte de uma sacerdotisa Fanti. Para se reconciliar com eles, a população deve organizar uma festa religiosa em homenagem a Mammy Water, Deusa da água, que dá nome ao filme. Na festa, vamos vendo então procissões, libações, oferendas, regatas, orquestras de percussões e metais, sacrifícios de bois para a Deusa, tudo para reestabelecer a aliança com os espíritos da água e trazer de volta os bons tempos da pesca farta – o que de fato ocorre. Assim, o filme não só mostra as crenças religiosas dos Fanti como também acaba por validá-las, ao provar sua eficácia. »
Os mestres loucos Les maîtres
fous
Documentário sobre a independência do Gana, vista pelos olhos de Adam Alahaj Kofoh, um jovem do país que conversa com Rouch em over (em francês e por vezes em inglês) enquanto passeia pelas ruas de Accra e se apresenta ao espectador.Vamos vendo a alegria nas ruas, a esperança e o orgulho dos ganenses recém-independentes, as festas oficiais, as danças, as autoridades, os jornalistas, os desfiles. Tudo palpita na festa da Independência. No filme, o uso do monólogo over do protagonista e a interação de sua voz com a de Rouch antecipam o dispositivo de Eu, um Negro. »
Moro Naba Moro Naba
Depois de um breve preâmbulo
apresentando o território dos Mossi, o filme mostra as cerimônias
do funeral do Moro Naba Saga, seu Rei-Sol desde 1942, que morre em novembro
de 1957 no seu Palácio em Ouagadougou. No fim dos 12 dias de cerimônia,
que o filme descreve e mostra de modo conciso, seu sucessor será
escolhido, reestabelecendo assim a ordem entre os Mossi.
Programa
3
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Jaguar Jaguar
Filme capital, dos mais importantes
de toda a obra de Rouch, Jaguar teve uma gênese longuíssima
e conheceu várias versões, a última das quais de uma
hora e meia (finalizada e lançada em 1967), que ficou mais conhecida
e que continuou circulando. Os atores improvisaram tanto nas filmagens
(iniciadas em 1954) quanto na pós-sincronização, realizada
em estúdio anos mais tarde. Cheio de ressonâncias picarescas,
o filme conta as aventuras do pastor Lam, do pescador Illo e do escrivão
Damouré, que decidem deixar o Níger e ir à Accra em
busca de fortuna. Eles partem à pé, passam por aldeias cuja
população os surpreende, cruzam ilegalmente a fronteira e
tomam três direções diferentes. Illo torna-se pescador
com os Ewé e Lam comerciante de perfumes. Damouré chega à
Accra e começa a trabalhar como servente para logo tornar-se um
homem da moda, um “Jaguar”, que vive a vida da cidade: corridas, danças
nas ruas, rituais dos Haukas, eleições de Kwame N’Krumah.
Na cidade ele encontra Illo e juntos partem em busca de Lam que, com seu
amigo Douma, abrira uma loja de muito sucesso no enorme mercado de Kumasi.
Uma noite, eles decidem voltar para casa. Ao chegarem à sua aldeia,
distribuem num dia o que ganharam em vários meses. Eles ficam sem
nada, mas conquistam o respeito da sua comunidade. A vida recomeça.
Programa
4
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Eu, um negro Moi un noir (Treichville)
Depois de um breve preâmbulo
em que Rouch comenta em over o fenômeno dos jovens imigrantes
desempregados, qualifica-o de uma das doenças das cidades africanas
e conta ter acompanhado por 6 meses imigrantes nigerianos em Treichville
antes de propor a alguns deles interpretar seu próprio papel num
filme, tem início o relato das aventuras de um jovem imigrante apelidado
de Edward G. Robinson, a quem o cineasta passa a palavra. Robinson vai
improvisar duas vezes a representação de uma semana de sua
vida em Treichville. Primeiro, na imagem, perambulando pelo bairro pobre,
indo ao trabalho de peão na construção civil, encontrando
amigos, se divertindo na praia, num jogo de futebol ou numa luta de boxe,
paquerando as moças em bares e boates, etc. Depois, no som, pós-sincronizando
num estúdio da Rádio Abidjan seus diálogos e monólogos
cheios de verve que atravessam de modo autônomo e quase ininterrupto
o filme inteiro, numa radicalização de um procedimento de
auto-fabulação já utilizado por Rouch em Baby Ghana.
Montadas como uma crônica em blocos intitulados “a semana”, “sábado”,
“domingo” e “segunda-feira”, as perambulações de Robinson
permitem ao filme mostrar um apanhado rico e variado da vida dos pobres
em Treichville, mas desencadeiam também notáveis figurações
de seu imaginário (numa cena em que ele se vê como campeão
de boxe, noutra em que se imagina sozinho com sua musa nua e numa última
em que rememora momentos vividos no rio Níger e na Guerra da Indochina
de que participou como soldado). Saudado com entusiasmo em duas notas breves
e num artigo mais longo de Godard de 1959, o filme é uma das obras-primas
de Rouch.
Programa
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A pirâmide humana La pyramide
humaine
Experiência de psico-drama
de Rouch com um um grupo de alunos do liceu de Abidjan sobre as relações
raciais entre brancos e negros. Eles improvisam seus diálogos e
devem inventar suas reações, vivendo aquela ficção
real ao invés de meramente representá-la. Inicialmente reticentes
e tacitamente segregados, eles decidem se frequentar e estabelecer verdadeira
amizade, confrontando sem subterfúgios o problema do racismo interiorizado
em cada um. Dali nascem também flertes, desejos, rivalidades e conflitos
(sobretudo em torno de Nadine, dos quais vários colegas se enamoram
ao mesmo tempo), um dos quais causando a morte de Alain, um dos estudantes,
por afogamento no mar. Rouch interpreta seu próprio papel e também
o do professor do Liceu. Ele pontua o filme com comentários over
sobre a experiência, que é também uma experiência
com a palavra, e não por acaso mobiliza uma série de textos
literários de Baudelaire (“Le Beau Navire”), Rimbaud (“Enfance”),
Molière (Tartuffe), Jules de Résseguier (“Sonnet”)
e Eluard (“La pyramide humaine”, que empresta o título ao filme)
misturados, numa polifonia de dicções e sotaques, com as
falas dos atores. Estes também monologam ou dialogam em over
por vezes, em falas pós-sincronizadas em estúdio. A ficção
termina com o retorno de Nadine à França, e Rouch conclui
dizendo que o mais importante não foi seu produto, mas seu processo:
graças ao filme, aqueles jovens aprenderam a se conhecer e a se
gostar, com suas qualidades e defeitos. A cena final, ecoando as do início,
mostra a negra Denise (com o branco Alain) e a branca Nadine (com o negro
Raymond) passeando em Paris, nos Champs Elysées.
Programa
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Crônica de um verão
Chronique d'un été
“Este filme não foi interpretado
por atores, mas vivido por homens e mulheres que deram momentos de sua
existência a uma experiência nova de cinema-verdade”. Com estas
palavras que ele diz em over logo de início, Rouch abre este
influente documentário filmado em som síncrono sobre o modo
como as pessoas vivem em Paris: como elas se viram? São felizes?
Marceline e Nadine entrevistam os transeuntes em Paris, Rouch e Morin elegem
um grupo de estudantes, trabalhadores e artistas que eles seguem mais de
perto e com quem conversam mais ao longo daquele verão de 1960.
Cada um vai falando de si, mas também da França, de modo
a que aflorem questões sobre a vida cotidiana, o trabalho, a solidão,
o amor, a política, a guerra da Argélia, os traumas da Segunda
Guerra (numa seqüência intensa, Marceline revela sua experiência
de deportada num campo de concentração nazista de onde seus
pais não voltaram, e logo depois profere um pungente monólogo
interior dirigido a seu pai morto). As férias chegam, as fábricas
ficam vazias, as praias ficam cheias. Vemos os cineastas acompanhando em
Saint Tropez alguns dos personagens. No fim, todos os principais personagens
assistem a uma projeção do filme e o discutem com franqueza.
E os dois autores, Rouch e Morin, fazem um balanço da experiência,
conversando sozinhos numa das salas do Museu do Homem antes de se despedirem
numa avenida de Paris.
Programa
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Saída das noviças em Sakpata
Sortie de novices à Sakpata
Lançando mão de um
experimento de sincronização do som e da imagem, o filme
mostra três momentos da iniciação de quatro noviças,
os cavalos dos espíritos, em uma aldeia Vaudoun de Allada ao sul
do Dahomé, atual Benin. A “danse de quête” das quatro noviças
orientadas por uma velha ocupa os 6 minutos iniciais, as danças
e os preparativos coletivos na véspera da saída são
mostrados nos 3 minutos seguintes e finalmente a cerimônia da saída
das noviças aparece nos 7 minutos finais, fechando este precioso
documento etno-musicológico.
Documentário sóbrio e preciso sobre a aprendizagem pelos jovens Dogon das técnicas tradicionais de percussão ensinadas pelos mais velhos na falésia da Bandiagara. Vemo-los treinando em tambores de pedra e de madeira. Precedidos por letreiros que os identificam, vários ritmos são mostrados de perto, com som síncrono, sem comentário over. Nos quatro minutos finais, vemos e ouvimos o toque dos tambores durante as cerimônias funerárias de Dyamini Na. »
Porto Novo: Balé da côrte
das mulheres do rei Porto Novo: Ballet de cour des femmes du
roi
Registro etnomusicológico
de uma série de danças rituais das mulheres do Rei do Benin,
no Palácio Real em Porto Novo. Na nova versão, remontada
por Rouget em 1996, um breve preâmbulo com fotografias e letreiros
precedem e situam uma cerimônia de entronização de
uma nova Rainha chamada de “água do mar”. Na cerimônia, filmada
com câmera na mão muito móvel, quatro danças
rituais representando os quatro pontos cardeais são executadas por
quatro dançarinas. Alguns inserts de fotos e letreiros fornecem
informações sobre os instrumentos musicais e outros elementos
de contexto. A cerimônia é precedida de uma dança preparatória
filmada na véspera, e sucedida por duas danças profanas,
filmadas em câmera lenta com som síncrono.
Programa
8
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A caça ao leão com arco
La chasse au lion à l’arc
Como um tradicional Griot africano, Rouch conta a um grupo de crianças a aventura da caça ao leão pelos caçadores Gaos, filmada ao longo de vários anos. Sua história vai desde os longos e cuidadosos preparativos dos caçadores até as perigosas perseguições aos leões, e o que era para ser um documentário se torna uma maravilhosa narrativa poética, das mais bonitas de toda a obra rouchiana. Uma das 5 ou 6 obras-primas incontornáveis do seu cinema. »
Um leão chamado Americano
Un lion nommé l'américain
Espécie de adendo ou continuação
da Caça ao leão com arco, numa versão porém
bem menos completa, este filme mostra os mesmos caçadores Gaos indo
em busca do leão conhecido como “Americano” que lhes escapara em
1965 e que eles, vendo o filme anterior que Rouch lhes projetou, decidiram
capturar. Questão de honra. Desta vez, as imagens já começam
pela caçada, “in media res”, dando a ver os caçadores numa
caminhonete, chegando à savana, acompanhados de Damouré,
Lam e Tallou. Vemo-los trocando o pneu furado, avançando a pé
pela savana, encontrando pessoas conhecidas no caminho, preparando armadilhas,
observando um leão capturado (mas é uma fêmea, não
é o Americano), que o vilarejo inteiro aparece comendo na cena seguinte,
antes da seqüência final com cantos rituais coletivos, a câmera
recuando e se afastando do grupo para, num desfecho elegante freqüente
em Rouch, enquadrar o céu. Na versão comentada por Rouch,
ele contava que ouvira no rádio, em plena savana, a notícia
da revolta estudantil de maio 68 e que, semanas depois de seu retorno a
Paris, o leão Americano que escapara novamente aos Gaos durante
as filmagens seria morto vergonhosamente por um fuzil.
Programa
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Yenendi, os homens que fazem chover
Yenendi: les hommes qui font la pluie
Primeiro filme de Rouch mostrando uma cerimônia anual do Yenendi (“refrescar”) através da qual os Songhay pedem aos deuses do céu as chuvas necessárias às boas colheitas. Narrado em over por Rouch, cuja voz convive com músicas e burburinhos nativos, o filme se constrói como uma prova cabal da eficácia deste rito de chuva. Ele se abre com planos da terra seca no mês de maio, resultante de 7 meses sem chuva, para em seguida mostrar os preparativos e o desenrolar das várias etapas da cerimônia (os músicos, as danças de possessão longamente mostradas, a negociação com os espíritos, a poção ritual derramada na terra, o sacrifício de animais) e culminar com os planos de um temporal prenunciado por sinais característicos. A sucessão destes três blocos principais tende a estabelecer uma relação causal inapelável entre a cerimônia e a chuva que se segue, de modo a endossar as crenças religiosas dos Songhay. »
Boukoki Boukoki
Numa praça repleta de Boukoki, em Niamey, Rouch se mistura à multidão com sua câmera para mostrar cenas de transe de possessão visando pedir aos espíritos a chuva no sétimo mês da estação seca. Aberto por uma breve apresentação da situação proferida em over por Rouch e filmado com som direto em planos nem sempre longos mostrando os Haukas gritando tumultuosos em torno do Hampi, este é provavelmente o filme do cineasta com o espaço mais saturado. »
Yenendi de Ganghel – A aldeia fulminada
Yenendi de Ganghel – Le village foudroyé
Assim como já ocorrera em
1942 (num episódio que converteria o então engenheiro Jean
Rouch à antropologia), um raio atinge em agosto de 1968 o vilarejo
de Ganghel. Imediatamente, os sacerdotes Pam Sambo Zima e Daouda Sorko
organizam uma cerimônia de possessão, o “Yenendi”, invocando
Dongo (o espírito do trovão) e Kirey (espírito do
raio) para acalmá-los. Comentado em over por Rouch, cuja
voz se alterna com as falas e as divisas dos Songhay em sua língua
(que o cineasta traduz por vezes, mas nunca legenda), o filme mostra com
câmera na mão muito móvel a cerimônia de possessão,
o transe dos cavalos e a tentativa de reconciliação com os
espíritos, que fracassa. Dongo e Kirey não darão seu
perdão aos habitantes de Ganghel, que não terão boa
colheita. Num momento curiosíssimo, aos 17’50’’ de filme, em plena
cerimônia de possessão, os próprios espíritos
de Dongo e de Kirey se dirigem à câmera e saúdam Rouch,
que filmava de perto os cavalos que eles possuíam.
Programa
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Sigui (1967-1973): Invenção
da Palavra e da Morte Sigui (1967-1973):
Invention de la Parole et de la Mort
Ensaio de síntese
da série dos sete filmes de Rouch (1967-1974) sobre as complexas
cerimônias do Sigui, que os Dogon do Mali organizam a cada 60 anos
para celebrar e reviver a invenção do mundo, a doação
da linguagem aos homens e a morte de seus ancestrais. Nesta nova montagem
realizada sete anos após o fim da série, Rouch elabora com
Germaine Dieterlen e diz em over, com sua entonação
serena bem típica, um precioso comentário que atravessa o
filme inteiro, além de inserir também, aqui e ali, alguns
planos de outros de seus filmes sobre os Dogon. Menos discreta e menos
tímida do que a série dos Sigui que ela reagencia (e na qual,
com exceção do episódio de 1969, Rouch tendia a se
eclipsar face à grandeza da cerimônia), esta síntese
comentada resulta numa obra-prima, um monumento do cinema etnográfico.
Programa
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Tourou et Bitti – Os tambores de outrora
Tourou et Bitti – Les tambours d’avant
Consensualmente reconhecido como uma das obras-primas de Rouch, o filme deveria mostrar um rito de possessão durante o qual os homens do vilarejo de Simiri pediriam aos Espíritos proteção para sua colheita. O transe esperado não acontece, Rouch decide não desligar sua câmera, e a presença da câmera sugestiona os músicos a continuarem a tocar, o que acaba desencadeando o transe. Tudo isto se passa num notável plano-sequência (precedido de um breve prólogo), comentado em over por Rouch, que dubla também em francês as falas em Songhay da cerimônia. »
Tanda Singui Tanda Singui
Narrado em over por Rouch, em primeira pessoa e com muita sobriedade, o filme dá a ver uma cerimônia de possessão num terreiro (ou concessão) de Yantala consagrado a Dongo, o espírito do trovão. Rouch penetra ali com sua câmera e filma em longos planos sequência cheios de mobilidade as possessões que ali ocorrem (por Dongo, Zatao, Sarki), mostrando músicos, cavalos e sacerdotes, até que o filme se feche com seu movimento simétrico ao do início, a câmera agora recuando até sair do terreiro pela mesma porta pela qual entrara. »
Horendi Horendi
Ensaio sem comentário over sobre a gestualidade do transe em cerimônias do Horendi, a iniciação à dança de possessão, num terreiro situado nos arredores de Niamey. Por vezes, Rouch utiliza a câmera lenta de modo a estudar de perto os movimentos das dançarinas que se deixam possuir. Em que pese seu caráter rascunhal, de documento etnográfico bruto, este é, no registro do que ele chamou de “cine-transe”, um dos grandes filmes de Rouch dos anos 70. »
Pam kuso kar “quebrar os potes de Pam”
Pam kuso kar “briser les poteries de pam”
Em fevereiro de 1974, Pam Sambo Zima,
o mais velho dos sacerdotes de possessão em Niamey, morreu. Rouch
filma, num plano sequência notável, a cerimônia funerária
que se seguiu e preparou a escolha de sua sucessora. Como de hábito,
vemos sua câmera entrar inicialmente no terreiro (na concessão)
em que a cerimônia ocorrerá, explorar seu espaço com
grande mobilidade, dando a ver os músicos, o vaso Hampi, os participantes
daquele rito, até recuar e sair dali no fim pela mesma porta pela
qual entrara, numa saída plenamente simétrica com a entrada.
Um epílogo mostra, com montagem mais entrecortada, algumas possessões
sobrevindas noutro momento, enquanto Rouch anuncia a sucessora escolhida
para o lugar de Pam Sambo Zima.
Programa
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Pouco a pouco Petit à
Petit (versão curta)
Continuação de Jaguar
com alguns dos mesmos atores (Damouré, Lam, Illo Gaoudel), Pouco
a pouco foi igualmente improvisado e gerou também duas versões,
esta mais curta de 92’ que circulou em 35mm, outra mais longa de três
partes e quatro horas ao todo, que permaneceu em 16mm e nunca chegou a
ser explorada comercialmente, mas que marcou muito alguns cineastas (Rivette,
Rohmer, Straub) nas projeções organizadas por Rouch. No registro
da comédia e em tom ameno, mas recebendo também os influxos
de maio de 1968, o filme traz alguns dos momentos mais claramentes anti-capitalistas
de todo o cinema de Rouch. Embora a versão longa (sua preferida)
traga planos mais longos, uma montagem mais dilatada e algumas sequências
ausentes nesta versão curta, a história é basicamente
a mesma nas duas: em Ayorou, junto com Lam e Illo, Damouré dirige
uma empresa de importação e exportação chamada
“Pouco a Pouco”. Ao decidir erguer um edifício, ele vai a Paris
ver como os franceses vivem em casas de vários andares. Na cidade,
numa aventura de etnografia ao avesso, ele descobre as curiosas maneiras
de viver e pensar dos parisienses, que descreve em cartões postais
enviados regularmente a seus companheiros, até que estes, apreensivos
com sua demora, enviam Lam à sua busca. Lam chega em Paris e vai
se aclimatando, sob a orientação de Damouré. Devidamente
aclimatados, os dois viajam pela Europa e pela América do Norte.
De volta a Paris, compram um conversível Bugatti e conhecem a negra
Safi e a branca Ariane, com as quais passeiam, fazem festas, flertam e
se divertem. Passeando à beira do Sena, eles ficam conhecendo também
um mendigo canadense chamado Philippe, que se junta às suas perambulações
e aventuras. O grupo decide voltar à África, para construir
o prédio. No entanto, as duas mulheres e Philippe não se
adaptam à nova vida e resolvem partir. Damouré, Lam e Illo
retiram-se para uma cabana às margens do rio e desistem do sonho
capitalista.
Programa
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O enterro do Hogon L’enterrement
du Hogon
Documentário sobre o enterro ritual do Hogon de Sanga, principal sacerdote da comunidade dos Ogol, que morrera na noite da véspera. À diferença do filme ligeiramente anterior sobre os Funerais em Bongo: o velho Anaï (1972), este aqui fica menos completo, mais próximo de um rascunho etnográfico. Ele não traz nenhum comentário over de Rouch, e parece registrar menos aspectos da cerimônia (concentrando-se em cenas de multidão na praça e no cortejo que conduz o manequim pela cidade), mas nos deixa numa relação mais imediata com as imagens e os sons captados. Compreendemos menos os detalhes e o sentido do que se passa, mas tendemos a prestar mais atenção aos elementos sensíveis do rito. Se a estratégia dos dois filmes é simetricamente oposta, sua iconografia porém parece basicamente a mesma e os movimentos da multidão na praça em ambos se assemelham. Aberto pelo rosto choroso de uma velha ao som de vozes e gritos, este segundo filme nos mostra cenas de tiros rituais, percussões, gritos, longas simulações de combates na praça, danças e a procissão pela cidade da multidão carregando o cadáver para conduzi-lo à necrópole (que não chegamos a ver). A câmera tende a mostrar aquela praça repleta e movimentada de longe, preferindo ficar um pouco à parte, sem mergulhar no tumulto coletivo. »
O Dama de Ambara: Encantar a morte
Le Dama d’Ambara: Enchanter la mort
Em 1972, Ambara Dolo morre. O filme
segue os três principais dias de sua cerimônia funerária,
dando a ver um extraordinário espetáculo de danças
e máscaras tradicionais, ao som de um comentário de Rouch
baseado em textos (sobretudo Les Masques Dogon) de seu mestre Marcel
Griaule. Uma das obras-primas africanas de Rouch.
Programa
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VW malandro VW Voyou
Filme publicitário divertido
e heterodoxo salientando as mil e uma utilidades do fusca (VW) para os
habitantes da África, mostrando-o em diversas paisagens (urbanas
e rurais) do Níger, lançando mão de várias
gags, mobilizando os amigos de sempre Damouré, Lam e Tallou,
e reservando para o fim um acidente grave (o Fusca dirigido por Damouré
despencando de um despenhadeiro) anulado por uma trucagem rara no cinema
de Rouch.
Ficção, no registro
da comédia, inteiramente improvisada sobre as aventuras de Lam,
Damouré e Tallou percorrendo de caminhonete a savana do Níger
em busca de frangos para seu comércio. A viagem está pontuada
de acontecimentos insólitos, como os encontros com uma mulher diabólica,
a visita de um burocrata francês de fala empolada a um vilarejo perdido
na savana e as travessias do rio Níger pelo carro, que é
um dos protagonistas da história. Um dos grandes filmes de Rouch
nos anos 70, Cocorico exala a liberdade e o prazer de filmar do
cineasta e de seus parceiros.
Programa
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Ispahan: Carta persa - A mesquita do Xá
em Ispahan Ispahan: Lettre persane – La Mosquée du Shah
Em visita à mesquita do xá em Ispahan, Rouch conversa de modo descontraído com o cineasta e produtor iraniano Farrokh Gaffary sobre a arquitetura daquele monumento e as relações ambíguas do Islã com o cinema, o sexo e a morte. »
Makwayela Makwayela
Resultado de uma oficina com um grupo de estudantes de Moçambique, este filme consiste numa visita de Rouch e sua pequena equipe à Companhia Vidreira de Moçambique. Ali, depois de uma cena breve dando a ver a fabricação de garrafas, o filme mostra, com som direto, uma dezena de trabalhadores cantando e dançando no pátio uma canção anti-imperialista cuja origem e cujo sentido eles explicarão em seguida ao cineasta: ela nasceu na dura experiência vivida por eles quando trabalhavam em minas de ouro na África do Sul, sob o regime do Apartheid. Findo o relato, eles se despedem muito cordialmente da equipe de filmagem (como sói acontecer nos desfechos dos filmes de Rouch) e se encaminham de volta para a fábrica. »
Bateau-givre Bateau-givre
Primeiro dos três episódios
do filme coletivo Brise-glace, dirigidos por Rouch, Titte Törnroth
e Raoul Ruiz, respectivamente, Bateau-givre parece à primeira
vista um filme menor e atípico de Rouch. Rodado num navio quebra-gelo
sueco chamado Frej, sem nenhum comentário over e com raras
falas em sueco ou inglês (nunca traduzidas) da tripulação,
ele vai mostrando sem pressa e sem ênfase as atividades cotidianas
naquele navio encarregado de desencalhar outros barcos bloqueados pelo
gelo. Nada acusa, na sua iconografia glacial, na sua banda sonora calcada
numa mixagem de ruídos sutis e no seu estilo de decupagem racional
(impessoal?) como a rotina daquele navio, a presença ou o trabalho
do cineasta, que não vemos nem ouvimos em nenhum momento. O projeto
lhe permitiu, em todo caso, visitar um universo que devia fasciná-lo,
pois seu pai era navegador e lhe transmitiu desde cedo o amor pelo mar.
Programa
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Nas pegadas da raposa pálida -
Pesquisas no país Dogon 1931-1983 Sur les traces du renard
pâle - Recherches en pays dogon 1931-1983
Dedicado “à memória de Marcel Griaule (1898-1956)” e filmado pelo eminente antropólogo e cineasta Luc de Heusch, este documentário conjuga imagens de arquivo (fotos e filmes de Griaule e de Rouch) com outras produzidas em território Dogon e com depoimentos filmados em Paris, para evocar as pesquisas dos africanistas franceses sobre os Dogon, concentrando-se no tripé formado por Marcel Griaule, Germaine Dieterlen e Jean Rouch. »
Jean Rouch e Germaine Dieterlen, “o futuro
da lembrança” Jean Rouch et Germaine Dieterlen – L’avenir
du souvenir
Em dezembro de 2003 Jean Rouch retorna
ao Mali, nas terras dos Dogon. Desde a morte de sua amiga Germaine Dieterlen,
com quem filmou as cerimônias dos Sigui e os ritos funerários
dos Dogon (e que aparece em inserts de filmes e fotos), Rouch esperava
vê-la homenageada num destes funerais tradicionais, como aquele reservado
ao mestre de ambos, Marcel Griaule, pioneiro dos estudos etnográficos
sobre aquela etnia. Rouch reencontra os filhos dos informantes com quem
ele e Germaine trabalharam por anos a fio em filmes e pesquisas. Eles evocam
Griaule e Germaine, que acaba recebendo a cerimônia tradicional e
sendo elevada à categoria de ancestral, segundo o desejo de Rouch.
Programa
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Mosso mosso - Jean Rouch como se...
Mosso Mosso, Jean Rouch comme si...
Encomendado pela prestigiosa série
francesa “Cinéma de notre temps”, este documentário define
a regra ficcional do “como se” como o princípio fundamental do trabalho
de Rouch, e a mostra em ação, saindo de Paris e partindo
ao Níger para acompanhar ali as filmagens imaginárias de
um filme, “La Vache Merveilleuse”, que Rouch fingia fazer com seus amigos
e cúmplices de sempre, Damouré e Tallou, mas sem Lam, já
falecido. É um dos dois ou três melhores filmes já
feitos sobre Rouch.
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